Uma querida conhecida está passando por uma situação muito difícil e, em uma longa conversa com ela, eu tive oportunidade de relembrar um dos momentos mais difíceis da minha vida. Não sei quantos de vocês que me leem já passaram pela incomensuravelmente dolorosa experiência da depressão, mas espero que bem poucos de vocês tenham passado por isso... ou venham a passar.
Não é uma lembrança que me traga qualquer tipo de sensação ruim; em parte, até pelo contrário. Por quase dois anos eu travei uma luta infinita com a depressão e, sozinho, quase perdi a batalha para sempre. Tinha muito a agradecer ao médico que me ajudou a curá-la, não tivesse ele feito o que fez com meu pai, eximindo-se da responsabilidade de tratá-lo quando surgiram os primeiros sinais do diagnóstico de câncer.
Mas... defeitos todos temos. A contribuição dele para minha vida, porém, foi digna de nota e, assim, há gratidão. Se são as pessoas especiais que nos ensinam como viver, ele foi uma delas. Houve uma pessoa em minha vida que me mostrou um caminho para a mente, o corpo e a alma. E ele me mostrou que as coisas tinham de ser ainda um pouco diferentes do que eu havia imaginado.
O que aprendi com essas pessoas e com a experiência - isto é, quebrando a cara - é que a nossa vida é como um rio. Ainda que algumas pessoas pensem que o rio não tem um propósito específico, na verdade ele tem o propósito que nós lhe atribuímos. Com a nossa vida é a mesma coisa: nós atribuímos um sentido à ela, seja quando escolhemos nossa profissão, quando escolhemos uma namorada ou esposa, quando escolhemos uma vida de viagens ou enraizada1.
Cada pessoa faz o que bem entende com seu rio. Algumas pessoas escolhem construir uma represa, cultivar animais aquáticos... algumas resolvem até murar seu rio. Há, ainda, pessoas que decidem que seu rio serve para aplacar a sede de outrem. Cada uma dessas escolhas tem suas beneces e seus perigos e não há, em princípio, como falar em "melhor" ou "pior", "certo" ou "errado". Há apenas "diferente".
Hoje falarei sobre as pessoas que decidem que seu rio, sua vida, será uma vida de doação, ou seja, pessoas que colocam o bem-estar alheio acima do próprio, independente de ela conseguir o resultado que deseja - ajudar efetivamente - ou não. Ninguém precisa ser padre/freira ou ter uma entidade beneficente para ter uma vida de doação.
O fato é que essas pessoas possuem uma tendência natural de darem cada simples gota de energia de seu corpo e de sua alma, seja naquilo que fazem, envolvendo pessoas ou não. Essas pessoas se sentem bem com isso, com o fato de proporcionarem bem estar, de ajudarem alguém, ainda que na maioria das vezes não haja reconhecimento algum - o objetivo não é obter reconhecimento, é se sentir parte do processo.
O problema é que todo rio tem uma capacidade máxima para a tomada de água, isto é, existe um limite para a quantidade de água que se pode retirar de um rio sem comprometer sua perenidade, sem comprometer sua vida. Quando um rio é muito exigido, quando é retirada água além de sua capacidade, seu ciclo de vida é alterado, mudanças ocorrem nele e em seu entorno, que levam fatalmente ao esgotamento da capacidade do mesmo, podendo até secar a nascente.
A analogia com os seres humanos é direta. Existe um limite para o quanto podemos "nos doar", ainda que queiramos muito fazer o bem aos outros. Sentir que está fazendo o certo não é garantia da perenidade, assim como matar a sede da criança hoje não significa que será possível repetir o feito amanhã. A nascente pode ter secado até lá, se os cuidados devidos não forem tomados.
Se controlado, um indivíduo pode ter uma vida dedicada àquilo que lhe faz bem. Descontrolado, porém, suas energias se vão, rapidamente, e, no final, ele terá conseguido fazer muito menos do que seria possível se tivesse mantido o controle. Isso não é fácil de ver; é comum que o limite seja transgredido e, com o tempo, as alterações no ambiente começam a ser notadas. As alterações causam um ciclo vicioso que empurram a nascente ainda mais rapidamente para sua extinção. E isso acontece conosco também. A exaustão emocional pode causar o estado conhecido como depressão, que é um ciclo vicioso do qual é muito, muito difícil sair.
Erroneamente, no meu entender, muitos descrevem a depressão como uma tristeza profunda. Eu não a descreveria assim. A tristeza profunda existe, mas ela é apenas uma consequência: a depressão é como se o inferno se instalasse em sua alma. Você se torna parte do inferno e o sofrimento é incomensurável. Aquilo que seria besteira em qualquer outra situação se torna uma tábua de mármore fervente na qual você precisa se deitar. E, apesar disso, você não consegue ver razão para não fazê-lo. Não é que não parece haver alternativas... é que todas as alternativas parecem igualmente despropositadas e sofridas.
Toda a capacidade de dicernimento sobre o que é uma boa direção para a sua vida... se perde. Todos os caminhos são de chamas e dor, tudo é tristeza e o mundo que você vê reflete isso. Você está isso e o mundo se torna um grande espelho.
Cada pessoa precisa encontrar forças para caminhar; a parte mais difícil é saber, no íntimo, que estamos vivendo em uma "Evil Matrix", que aquilo não é o mundo de verdade e que, apesar de não parecer haver saída, ela existe sim. E o caminho para ela é o caminho que escolhermos se quisermos sair, seja ele qual for, desde que o mantenhamos até o fim. Quando chegarmos bem perto da borda da "bolha" em que estamos vivendo, será possível ver lá fora, e entender do que é feita... e assim ter condições de sair.
O caminho, entretanto, é árido. Cheio de sentimentos de dor e sem referenciais. É como andar por um deserto, após uma duna vem sempre outra duna... e aquilo parece que nunca vai acabar. E se não mantivermos a direção, não vai mesmo! É preciso manter a direção pois só assim, em algum momento, alcançaremos a borda do deserto. Essa é a parte mais difícil, pois o processo pode demorar anos - talvez boa parte da vida - e não há qualquer tipo de indicação de progresso, não há qualquer motivação, nada.
Por essa razão, os medicamentos são uma faca de dois gumes. Por um lado, eles permitem que se tenha uma visão um pouco mais "limpa" do mundo real - no fundo eles agem como filtros para a nossa mente, permitindo que notemos algum progresso e nos mantendo mais animados. Por outro lado, eles podem fazer com que a pessoa se disperse e não veja motivos para parar de vagar pelo deserto, para sempre, caindo num processo de dependência.
Assim como quem quebra uma perna precisa de uma muleta para caminhar, quando a nossa situação emocional é "feia", pode ser que precisemos da medicação. Mas, assim como ninguém quer andar de muleta para sempre, é preciso ter noção clara de que temos de achar nosso caminho para que não precisemos mais de medicamentos2.
É preciso ter esse desejo racional e bem arraigado, porque estes remédios afetam nossa capacidade de avaliação também. Se o efeito depressivo nos faz ver tudo horrível, eles têm uma tendência a nos fazer ver tudo "bom". E isso pode ser ainda mais perigoso, porque a falta de parâmetro continua, mas também podem sumir o instinto de sobrevivência, o amor próprio e, com isso, criar uma situação ainda pior que a original. É preciso muita responsabilidade para receitar tais medicamentos e, ainda mais, para tomá-los.
Eu passei por isso do meio de 2003 até o início de 2005; consumi medicamentos do meio de 2004 até o fim de 2004, quando juntamente com o médico decidi que já tinha forças para continuar adiante mesmo sem ainda ver a luz no fim do tunel. Foi um momento difícil, onde as pessoas de fora não podiam me ajudar e preferia ter podido estar longe delas, para não tê-las machucado.
Apesar de todas estas lembranças difíceis, eu fico feliz de poder olhar para trás e ver que eu superei tudo isso. E serei eternamente grato à força de uma ... [para ver o resto, vá até a página!]